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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS
O lado enevoado da vida noturna santista

 

Até a Primeira Guerra Mundial, a vida noturna santista, movimentada principalmente pelos marinheiros dos navios que diariamente chegavam ao porto, concentrava-se na Praça da República, no Centro. Quando começou a decadência do bairro do Paquetá, com as principais famílias se mudando para os palacetes construídos à beira-mar, simultânea com a ampliação do porto santista em direção ao Macuco, a degradação urbana favoreceu o avanço das casas noturnas pelo Paquetá, com a presença das "polacas", chegando a Boca ao auge nas décadas de 1960 e 1970.

A partir do fim da década de 70, a conteinerização das cargas (que abreviou a permanência dos navios no cais para poucas horas), e o empobrecimento da cidade, submetida a dura repressão militar, levaram à decadência da Boca, que perdeu o "glamour" e ficou apenas marcada pelo baixo meretrício.

São estas histórias que a escritora santista Sayonara Farias de Oliveira conta em seu livro Cortina de Fumaça, lançado em 2008, e que gerou também o filme Reflexões do Cortina de Fumaça (2011). A autora enviou a Novo Milênio em 13/5/2011 trechos de seu livro, onde analisa principalmente a situação das "garotas de programa", e as imagens usadas nesta página:

Ilustração usada na capa do livro Cortina de Fumaça

Cortina de Fumaça

Sayonara Farias de Oliveira

Dos diversos temas estudados, a prostituição sempre nos chama a atenção pela curiosidade em saber acerca desse universo tão provocante, porém ao mesmo tempo é mantida por de trás de uma "cortina de fumaça". O centro de Santos é exemplo dessa realidade, pois existem duas dimensões dentro de um mesmo espaço, ou seja, a prostituição nos hotéis de alta rotatividade e as ruas que se mesclam com a movimentação de pessoas das repartições, lojas, restaurantes e vários outros segmentos empresariais que encobrem o baixo meretrício.

Quase toda realidade subumana é camuflada e a prostituição não fica de fora, e em lugares como os hotéis de baixa categoria que servem de prostituição, o preconceito é muito maior, pois além de mulheres prostitutas, são pobres, analfabetas e duplamente ou triplamente desvalorizadas.

O centro de Santos tem uma grande importância histórica no cenário brasileiro por ter sido uma das primeiras vilas povoadas do Brasil. Possui uma rica história, bem como um grande potencial econômico, por possuir um dos portos mais importantes do mundo e forte vocação turística.

A vila de Santos foi fundada no séc. XVI e até o séc. XIX possuía aspecto provinciano. Os primeiros núcleos de ocupação urbana no centro velho de Santos localizavam-se entre o Outeiro de Santa Catarina e o Convento do Valongo. Até o último quarto do séc. XIX Santos praticamente se resumia a esses dois núcleos.
O processo de crescimento e desenvolvimento de Santos esteve sempre aliado ao desenvolvimento do Porto. O aumento na produção do café e a construção da ferrovia foram determinantes para alavancar a cidade rumo ao progresso.

Somente a partir da segunda metade do séc. XIX, sobretudo quando havia necessidade de aparelhar o Porto para a exportação cafeeira, a cidade vai se tornar um polo receptor de milhares de imigrantes como os portugueses, espanhóis os italianos, e japoneses que vinham em busca de oportunidades que a região oferecia. Os imigrantes estrangeiros e do Nordeste brasileiro vão atender às necessidades da construção do porto, das atividades cafeeiras e na construção civil.

A cidade se expande num crescente processo de urbanização e novas oportunidades surgem com o incremento das atividades comerciais. O "centro velho" de Santos vai perdendo suas características originais, passando a ser uma área essencialmente comercial, com empresas, bancos, agências de navegação e armazéns ligados, sobretudo, ao café.

O cenário do baixo meretrício de Santos é a preocupação principal deste estudo. Ao levantar o cotidiano das mulheres de programa do baixo meretrício santista, vítimas do desrespeito e preconceito por grande parte da sociedade, preocupou-se estudar as principais causas que fazem com que essas mulheres cheguem no baixo meretrício, sua origem e característica social.

Localiza-se o espaço de atuação, especificando onde essas mulheres agem e se instalam, procurando entender as suas relações com os cafetões com os hoteleiros e com os clientes.

Para execução desse estudo, foram feitas pesquisas em campo, ouvindo a voz dos sujeitos atuantes nesse universo.

O estudo acerca do baixo meretrício no centro de Santos faz-se necessário, visto que temas relacionados ao cotidiano dessa realidade têm poucas referências escritas.

A análise deste trabalho focará o Paquetá, a partir da década de 40, zona portuária que vai passar a ser conhecido pela vida noturna que começa a ser desenhada. Aos poucos ia se adaptando às transformações ocorridas no período e abrindo caminho para a movimentada noite que agitaria o bairro nos anos 60.


Bairro do Paquetá mais próximo ao Porto nos anos de 1930

Foto: Fundação Arquivo e Memória de Santos, imagem incluída no livro

Por estar mais próxima ao Porto, a zona boêmia nasceu para atender a grande demanda de trabalhadores, marinheiros, milhares de pessoas que viviam direta e indiretamente das atividades portuárias, passando a ser a principal área de lazer noturno da cidade nesse período.

Entre as décadas de 1940 e 50 vão surgindo grandes boates luxuosas próximo ao Porto.O famoso restaurante "Chave de Ouro" que ficava na Rua General Câmara próximo ao Porto, é o ponto de partida do auge da boêmia do Paquetá, tornando-se uma casa conhecida internacionalmente e após seu sucesso, inúmeros bares e boates surgem para atender a grande demanda de interessados na diversão que a vida boêmia propicia.

O tema dessa pesquisa é sobre a prostituição, mais precisamente no "Baixo Meretrício" da cidade de Santos. Trata-se de um assunto secular, mas pouco explorado pela Academia, tão antigo quanto a história das civilizações.

Há pouca documentação escrita sobre o cotidiano das garotas de programa, talvez por pertencerem à uma realidade muito difícil, carregada de tabus e preconceitos, sendo silenciadas pela "historiografia oficial".

Por se tratar de uma pesquisa feita diretamente a partir do contato direto com cotidiano das prostitutas, as principais fontes utilizadas foram os depoimentos dessas mulheres alguns hoteleiros, porteiros de hotéis, e donos de bares; homens que frequentam há muito tempo o "baixo meretrício" e algumas pessoas que convivem direta e indiretamente com esse meio, como a babá dos filhos das garotas de programa e as vendedoras ambulantes.

Os vários depoimentos foram determinantes para construção do cotidiano de forma não preconceituosa.

A minha observação durante os vários dias que passei dentro dos hotéis, coletando informações e dialogando com as pessoas que ali frequentam ou trabalham permitiu estabelecer os pontos importantes a serem abordados, tais como: perspectiva de vida; como as mulheres entram na prostituição e o seu papel; as relações familiares; funcionamento da estrutura do "baixo meretrício".

Fui orientada a chamar as mulheres que se prostituem, de garotas de programas, pois, segundo informações adquiridas, elas não gostam de serem chamadas assim. Tratam-nas também de "meninas", porém evitei colocar essa denominação no trabalho para não confundir com uma criança ou menor de idade.

Já existia em 1952 uma movimentação, das boates, cabarés... muito reservadamente eram casas que bem mais tarde começaram a ser identificadas com uma lanterna... eram casas muito reservadas, muito restritas". (Antonio José, ex-morador do centro na época da zona boêmia).

A casa da Dona Ivone era frequentada por diversos homens de várias classes sociais. Ali atendiam muitas moças de várias nacionalidades, francesas, mestiças e muitas mulheres do Sul do Brasil, que se vestiam deslumbrantemente. Esta casa funcionou entre o fim da década de 50 e a segunda metade da década de 70. Devido ao processo de transformação no centro, a casa fechou, como vários outros estabelecimentos da antiga zona boêmia.

Antiga casa de prostituição da Dona Ivone – Rua General Câmara 275

Foto: Sayonara Farias de Oliveira, em 2008


Zé das Jóias, antigo frequentador da Casa da Dona Ivone, refere-se às mulheres: "Eram tudo bem vestida, sapatos altos, saias... Era muito difícil você ver mulheres de calças jeans, de tênis... Não só lá, mas em todo o local. Hoje você não vê mais mulheres de vestido, só mulher de alta sociedade".

Segundo Evânia Alves, historiadora e professora, "concentravam-se as polacas no centro da cidade de Santos, nas proximidades portuárias, ocupando ruas como Amador Bueno, João Pessoa, João Otávio e Senador Feijó".

Muitas "polacas" que aportaram em Santos acabaram ficando na cidade.Prova disso, é o cemitério que se localiza hoje em Cubatão com a existência de 68 sepulturas dessas mulheres que nunca conseguiram regressar ao seu país de origem, morreram e foram enterradas em um cemitério específico de judeus, transferido de Santos para cidade de Cubatão em 1929, na época distrito de Santos. Essas "polacas" foram enterradas em áreas isoladas junto com aquelas que se suicidaram. Nesse mesmo local foram enterrados alguns cáftens.

A AIDS representou o último passo rumo ao triste fim da zona boêmia. Nos tempos áureos do centro de Santos, vai se transformando. A diversão vai se espalhando por outros bairros da cidade. Hoje existe prostituição em diversas ruas do centro, diferentemente do passado, onde a grande maioria do lazer e entretenimento se concentrava somente no centro e próximo ao Porto.

Atualmente a região que abrigava as famosas boates está com um aspecto de abandono, pois, com o passar do tempo os vários estabelecimentos foram fechando e hoje muitos estão praticamente abandonados ou mal conservados.

O que sobrou de um período de esplendor são decadentes casas e hotéis de alta rotatividade e a antiga zona boêmia resume-se em um meretrício de nível bem baixo, que é caracterizado pelo ar decadente e sem brilho, abrigando mulheres de diversas partes do Brasil.

Bares onde há muita movimentação de mulheres de programa

(N.E.: esquina das vias João Pessoa e Senador Feijó)

Foto: Sayonara Farias de Oliveira, em 2008

A "boca do lixo" que surge com a decadência da zona boêmia, e que também é chamada de "baixo meretrício" vai se evidenciando a cada dia. Muitas pessoas, apesar de ali passarem todos os dias, não imaginam que nestes locais exista um cotidiano repleto de acontecimentos imersos no "submundo" ou mundo da prostituição.

Diferentemente da noite, a prostituição durante o dia no "baixo meretrício" do centro é mais camuflada pela multidão de transeuntes e as diversas lojas e escritórios existentes no Centro. As garotas de programa ficam mais camufladas nas escadarias dos hotéis e precisam cumprir certas regras, como não circular pelas ruas e não podem usar roupas curtas, por isso que muitas vezes essas mulheres passam despercebidas em meio à agitação do centro.

Muitas ruas do Centro de Santos não têm movimento de prostituição, somente comércio e diversos escritórios ligados as várias empresas.

Diferentemente dessas empresas, o baixo meretrício não tem horário certo de funcionamento. O movimento pode ser considerado 24 horas por dia, não existindo folgas, feriados prolongados, feriados religiosos, porque os frequentadores aparecem todos os dias e o tempo inteiro.

Ainda nesse trecho, existem também, algumas decadentes boates, como a "Boca Loca" e alguns bares com alta concentração de homens, que vão chegando nos fins de tarde, fazendo parte assim do cenário do baixo meretrício.

O "baixo meretrício" costuma ser citado em livros, filmes e novelas, e muitas vezes pincelado de forma romântica e poética, porém a realidade pesquisada nada tem a ver com esse cenário poético da ficção. Muito pelo contrário, a vida das garotas de programa, de romanceada não tem nada. A vida no baixo meretrício é cheia de incertezas, violência, droga e falta de perspectiva da grande maioria das mulheres que sobrevivem.

Diferentemente de um local de prostituição média ou de luxo, o baixo meretrício caracteriza-se primeiro pelo aspecto decadente e inóspito, encontrados nos vários hotéis de alta rotatividade alugados pelas garotas para fazer seus programas.

O "baixo meretrício" é um mundo imerso de pessoas ditas excluídas. Nesse universo se vê de tudo, a garota de programa, o jogador, o cafetão ou rufião, o traficante de drogas, enfim o local é alvo de batida de policia a todo o momento, sobretudo por causa dos traficantes ou para averiguar se há menores. Essas batidas policiais são rotineiras, visto que o meretrício está encravado no centro comercial de Santos, e há necessidade de se manter a "ordem" entre essas duas dimensões, o centro comercial e o baixo meretrício.

No centro da cidade de Santos há inúmeros espaços de prostituição, sobretudo os hotéis de alta rotatividade, justamente onde será o foco desta pesquisa, onde muitas garotas utilizam estes espaços para fazer seus programas. Esses hotéis caracterizam-se por não dispor de recursos mais sofisticados, diferentemente de um hotel de outra categoria. Geralmente são localizados em zonas de prostituição, alugados para permanências curtas, aluga-se por meia hora para atender frequentadores do baixo meretrício, cujos preços são bem módicos, ou seja, 10 reais o aluguel por meia hora.

Estrutura dos hotéis de alta rotatividade utilizados pelas mulheres de programa

(N.E.: na foto, Av. Senador Feijó, trecho junto à Rua João Pessoa)

Foto: Sayonara Farias de Oliveira, em 2008

Segundo muitas mulheres entrevistadas, os hotéis de alta rotatividade de certa forma são menos piores de trabalhar que na rua. Apesar de ter que cumprir certas regras, é preferível ficar nos hotéis que na rua, porque nela as mulheres ficam mais expostas a todo o tipo de violência.

Durante o levantamento para se construir o cotidiano sobre as mulheres de programa do baixo meretrício, foram surgindo diversas questões sobre o real motivo que leva uma mulher a prostituir-se, e as "explicações" e "definições" são bem variadas.

A questão da droga tomou uma proporção gigantesca entre as mulheres, cerca de 90 por cento das entrevistadas usam. A droga que circula no meretrício vai desde a maconha, cocaína e o mais comum entre elas é o craque, droga mais barata e muito mais nociva.

Assim como existe uma migração muito grande por parte das garotas de programa, automaticamente reflete na vida de seus filhos, visto que a maioria das entrevistadas têm filhos, e os mesmos são cuidados pelas mães, sogra, ex-marido, babás; enfim, as crianças são sempre ajudadas por alguém próximo da família e, em troca, as mulheres de programa enviam dinheiro para assegurar que estas sejam cuidadas.

Segundo depoimentos, existem muitos casos de homens que se aproximam das mulheres para supostamente assumi-las como namoradas ou esposas, mas com o intuito de serem seus cafetões. Eles percebem que essas mulheres têm potencial para atrair muitos clientes e começam a assediá-las, e quando estas se apaixonam ficam subjugadas, muitas vezes, a esses homens.

Essa pesquisa nos faz enxergar a "verdadeira" realidade dessas mulheres de programa, que passam por situações diversas, suportando a vida prostituindo-se no baixo meretrício; e, ao mesmo tempo, nos faz enxergar que são mulheres, donas de casas, mães, que driblam em busca da sobrevivência como qualquer outra mulher dessa geração.

A pesquisa também, alerta sobre o grande número de mulheres de programa viciadas em craque e o perigo da falta de consciência de muitos homens, que não querem usar preservativos durante o programa.

A expectativa é que esta abordagem venha contribuir para o meio científico de História, servindo de base para futuros estudos acerca dos demais temas relacionados do mundo da prostituição, com perspectiva uma das várias ferramentas nos debates acerca de temas sociais da atualidade, buscando também contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e com menos preconceitos.

Lombada e capa do livro

Abas do livro

Capa final do livro

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