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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - SANTOS EM 1913 - BIBLIOTECA NM
Impressões do Brazil no Seculo Vinte - [39-A]

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Clique nesta imagem para ir ao índice da obraAo longo dos séculos, as povoações se transformam, vão se adaptando às novas condições e necessidades de vida, perdem e ganham características, crescem ou ficam estagnadas conforme as mudanças econômicas, políticas, culturais, sociais. Artistas, fotógrafos e pesquisadores captam instantes da vida, que ajudam a entender como ela era então.

Um volume precioso para se avaliar as condições do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial é a publicação Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd., com 1.080 páginas, mantida no Arquivo Histórico de Cubatão/SP. A obra teve como diretor principal Reginald Lloyd, participando os editores ingleses W. Feldwick (Londres) e L. T. Delaney (Rio de Janeiro); o editor brasileiro Joaquim Eulalio e o historiador londrino Arnold Wright. Ricamente ilustrado (embora não identificando os autores das imagens), o trabalho é a seguir reproduzido, em suas páginas 627 a 639, referentes ao Estado (ortografia atualizada nesta transcrição):

Impressões do Brazil no Seculo Vinte

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Guaratinguetá
Foto-montagem publicada com o texto, página 633

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Estado de São Paulo (B)

Indústria - Com o desenvolvimento da agricultura, as indústrias têm tomado grande incremento; e hoje S. Paulo é o mais importante centro industrial da União. No fim de 1908, além de numerosas pequenas fábricas, tinha o Estado 326 grandes estabelecimentos, em que se despendia uma força motriz de 18.801 cavalos. O capital estrangeiro era de Rs. 127.702:191$00 e a produção anual atingia a Rs. 118.087:000$000.

As fábricas de algodão eram as mais numerosas, ao todo 23, e davam emprego a 7.387 operários. Ocupavam 3.907 teares e 110.996 fusos. Nas várias fábricas, a produção chegava a 60.633.932 metros, no valor de Rs. 29.150:000$. Além disso, havia 503.423 metros de artigos de lã, manufaturados. É vasta a fabricação de chapéus no Estado e há várias grandes fábricas com avultado número de operários, as quais em 1908 produziram 1.589.627 chapéus, no valor de Rs. 7.069:454$.

A indústria metalúrgica acha-se também muito desenvolvida: empregados, no mínimo, Rs. 10.000:000$ de capital, e não produz menos de Rs. 8.000:000$ por ano. Constituem importantes indústrias locais os artigos de vidro e cristal, especialmente as garrafas. São também de considerável importância as indústrias da refinação de açúcar e fabricação de cerveja, que ocupam grande parte da população.

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1) S. João da Bocaina; 2, 4 e 6) Araraquara; 3, 7 e 8) Itapira; 5) Vila São Martinho, cidade de Tatuí
Foto-montagem publicada com o texto, página 634

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Vias de comunicação - O Estado de S. Paulo não tem bons meios de comunicação fluvial, como já se disse. Há apenas cerca de 896 quilômetros de curso navegável. A linha de Xiririca (N.E.: atual município de Eldorado Paulista) e Iguape percorre 154 quilômetros do Rio Ribeira, sendo esta de fato a única em rio que deságüe no Atlântico. Serve, entretanto, a uma região muito esparsamente povoada e de pequeno tráfego.

Há outros cursos que facilitam o transporte dos produtos agrícolas para as estradas de ferro, que os levam a Santos, e são: o Mogi-Guaçu, de Porto Ferreira a Pontal, numa distância de 200 quilômetros; o Piracicaba, de João Alfredo à sua foz, 126 quilômetros; e o Tietê, de Porto Martins a Porto Ribeira, numa distância de 96 quilômetros.

A falta de comunicações, contudo, nessa direção, está sendo rapidamente compensada pelo excelente sistema de estradas de ferro, já bem desenvolvido, cujo crescimento tem sido excepcional. Em 1872, havia 139 quilômetros; em 1880, 1.176; 1890, 2.329; 1900, 3.313; 1910, 5.201, cuja receita total subiu a 84.912:548$109 réis. Destas estradas de ferro, 3.392 quilômetros são de concessão do Estado; 1.562 de concessão federal e 157 foram construídos pela União ou pelo Estado; 1.718 quilômetros pertenciam à União ou ao Estado e 3.483 a companhias particulares.

Não incluindo a linha de Araraquara e a Ferro Carril de S. Vicente, cujos dados não puderam ser obtidos, foi o seguinte o movimento financeiro das estradas de ferro, durante o ano de 1910:

Receita ........................................................................... 83.418:632$109

Despesa .......................................................................... 45.516:393$755

Saldo .............................................................................. 37.902:238$354

As quatro principais estradas contribuíram para este resultado, na proporção seguinte:

  Receita Despesa Balanço
Estrada de Ferro São Paulo:      
   Linha Principal 25.769:358$830 15.386:324$590 10.383:034$240
   Seção Bragantina 477:956$410 354:526$110 123:430$300
   Estrada de Ferro Paulista 15.157:762$350 8.311.713$264 6.846:049$086
   Estrada de Ferro Mogiana 18.219:166$849 11.156:571$073 7.062.595$776
   Estrada de Ferro Sorocabana 13.784:961$934 6.733:694$851 7.051.267$083

A Estrada de Ferro Central do Brasil liga a cidade do RIo de Janeiro a S. Paulo, com a extensão de 274 quilômetros só no Estado. O porto de Santos acha-se ligado à capital do Estado por 79 quilômetros da Estrada de Ferro de S. Paulo, que prossegue na distância de 60 quilômetros até Jundiaí.

A Sorocabana e Ituana servem uma zona de grande importância comercial e industrial, que compreende as cidades de S. Manuel do Paraíso, Avaré, Piracicaba e Sorocaba, sendo o seu comprimento total de cerca de 1.000 quilômetros.

As companhias Mogiana e Paulista estendem uma rede de estradas pela zona mais produtiva e mais populosa do Estado, onde se encontram grandes plantações de café. A Paulista começa em Jundiaí, onde termina a S. Paulo, e passa por Campinas, donde parte a Mogiana, que corre para Minas Gerais. Há ainda menores sistemas de estradas no Estado, servindo pequenas áreas de relativa importância.

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Lorena: 1) Uma parada; 2) O Jardim Público; 3) A Linha de Tiro; 4) Membros da Câmara Municipal; 5) Ginásio S. Joaquim; 6) Capela de S. Benedicto
Foto-montagem publicada com o texto, página 635

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O comércio costeiro, de acordo com a constituição brasileira, e todo feito por companhias nacionais. Todas as linhas tocam no porto de Santos. A mais importante é a do Lloyd Brasileiro, que parte do Rio de Janeiro e toca nos principais portos dos Estados de S. Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O governo do Estado subvenciona uma companhia de navegação que corre entre Rio de Janeiro e Santos, tocando nos portos do Norte do Estado.

Quanto a novas linhas, foram dadas as seguintes concessões, durante 1910, de acordo com a Lei nº 30 de 1892: à Estrada de Ferro Mogiana, para a construção de uma linha de Jataí a Ribeirão Preto; à Companhia de Estrada de Ferro de Dourado, para a construção de uma linha de S. João da Bocaina a Bariri, com o ponto terminal em Jaú e Airosa Galvão; aos srs. Clemente Neidhart, Mario Tybiriçá e Sylvio de Campos, para uma linha de Perus a Pirapora, devendo aqueles senhores formar uma companhia para explorar esta concessão com o nome de Companhia Industrial e de Estradas de Ferro Perus-Pirapora; à Companhia de Estrada de Ferro Mogiana, para um ramal de Santos Dumont a Cajuru, a partir do quilômetro 22; à Companhia de Estrada de Ferro S. Paulo a Goiás, para uma linha do Monte Azul a Cachoeira do Marimbondo via Vila Olímpia; à Companhia de Estrada de Ferro Sorocabana, para uma linha de Itaici a Campinas.

Dois decretos posteriores foram expedidos, garantindo uso e gozo, de acordo com a lei acima mencionada, das seguintes linhas que são de concessão municipal e que, já abertas ao tráfego, foram adquiridas pela Mogiana em 1909: de Santos Dumont às margens do Rio Pardo; e de Cravinhos a Alvarenga com um ramal para Arantes. O comprimento total, para essas linhas, é de 390 quilômetros. Quanto ao telégrafo, havia, em 1910, 1.955 quilômetros de linhas; assim também 3.350 quilômetros de linhas telefônicas. Durante o mesmo ano de 1910, o correio no Estado lidou com 97.898.316 volumes e cartas.


Ministério das Finanças, São Paulo
Imagem publicada com o texto, página 636

Talvez nenhum país do mundo possa ser comparado ao Estado de S. Paulo no particular da força hidráulica, porque os rios da vertente ocidental da Serra do Mar são poderosas correntes que descem, vertiginosas, formando saltos inúmeros. A usina hidráulica que fornece eletricidade à capital do Estado está nas imediações da histórica cidade de Parnaíba, à distância de 33 quilômetros de S. Paulo.

Vários saltos no Rio Tietê, um dos principais do Estado, fornecem força elétrica à Capital. Numa distância de menos de meia milha, há uma diferença em nível de 33 pés. Uma companhia de capital canadense e norte-americano, a São Paulo Tramway, Light & Power Company Ltd., aproveitando estes saltos, construiu grandes reservatórios que movem geradores elétricos, suprindo S. Paulo de força e luz. Entre a cidade de S. Paulo e o Salto de Itu, o mesmo rio oferece uma seção de 150 metros cheia de pequenas quedas que fornecem a força de 75.000 cavalos.

O Salto de Itu supre várias fábricas, na vizinhança, de força motriz. Um pouco mais abaixo, no mesmo Rio Tietê, encontram-se as cachoeiras de Barra Grande, Escaramuça e Avanhandava. A mais importante é esta última, situada no ponto em que a futura cidade de Avanhandava será edificada e que já é visitado pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

Quase à foz do Tietê, acha-se a notável cascata de Itapura, cuja altura excede 4 pés. Pouco distante dessa cascata, há outra, não menos notável, de nome Urubupungá, em um rio mais volumoso, o Rio Grande, de que o Tietê é tributário. O volume d'água destas duas cascatas é de cerca de 6.900.000 litros por segundo; isto é, quase tanto como o do Niagara. Poderiam fornecer energia, avaliada em mais de 1.000.000 de cavalos, isto é, quatro vezes mais do que a atualmente usada em todo o Estado.

No Rio Piracicaba, muito perto da cidade do mesmo nome, há uma grande e poderosa cachoeira, que fornece luz à cidade e força a inúmeros estabelecimentos industriais. E no Rio Sorocaba, também tributário do Tietê, há outra imensa cachoeira conhecida por Ituparanga, que serve a fins industriais e supre de iluminação elétrica a cidade de Sorocaba.

No Rio Paranapanema, cujo volume d'água é de 300 metros cúbicos por segundo, há numerosos saltos que constituem um reservatório natural de força hidráulica. Os principais são os de Itapocu, Aranhas, Piraju, com uma queda de 34 metros em 19 quilômetros, os saltos de Palmital e a cascata da Água do Padre, da altura de 4 metros. A cerca de 9 quilômetros antes da junção deste rio com o Rio Pardo, encontra-se a cascata do Salto Grande, ou Dourados, poderosa massa d'água de 9½ metros de altura.

Na vizinhança da maioria das principais cidades do Estado, tais como Santos, Campinas, Amparo, Rio Claro, Ribeirão Preto e Mococa, há grandes quedas que têm sido utilizadas pela indústria; assim também nas planícies elevadas do Rio Grande e nos rios Mogi-Guaçu, Sapucaí, Peixe, Juqueri-Querê e outros, há poderosos saltos que, sem dúvida, serão oportunamente aproveitados. Pode se dizer que não há em S. Paulo localidade alguma, em cujas redondezas não haja vantajosos reservatórios hidráulicos.

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São Carlos
Foto-montagem publicada com o texto, página 636

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Governo e instrução - O Governo Civil consta de três departamentos, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. O primeiro compete ao Congresso, composto do Senado e da Câmara. O Executivo é exercido pelo presidente do Estado. O Poder Judiciário é representado pelos juízes e tribunais, sendo no Estado a mais alta corporação judiciária a Corte Suprema, que decide as apelações e outros incidentes em grau de recurso das decisões de instâncias inferiores.

Os serviços administrativos do Estado acham-se distribuídos por três departamentos, cada um dirigido por um secretário diretamente responsável perante o presidente; tais são a Secretaria do Interior e Justiça; a Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas; e a Secretaria de Finanças.

A Secretaria do Interior e Justiça superintende: a Biblioteca Pública, a Inspeção Geral das Escolas Públicas, a Escola Normal, as escolas complementares, as escolas modelos, kindergartens (N.E.: jardins da infância), grupos escolares, escolas preliminares, os ginásios da Capital do Estado e de Campinas, a Escola Politécnica, os Asilos de Órfãos e Alienados, a Estatística e o Arquivo, a Gazeta Oficial, a Diretoria da Saúde, o Laboratório de Análises, o Instituto Bacteriológico, o Laboratório de Farmácia, o Instituto Vacínico, Serviço Geral de Desinfecção, o Hospital de Moléstias Contagiosas, o Serviço Demógrafo Sanitário, e o Instituto Serum-Terapêutico. Esta Secretaria também superintende: a Corte Suprema do Estado, a Procuradoria Geral, os Juízes de Circuito, a Câmara do Comércio, o Departamento da Polícia, a Detenção e a Força Pública.

A Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Púbicas superintende: as obras públicas, a inspeção de estradas de ferro e navegação, a imigração e colonização, o Instituto Agronômico, a Escola Prática de Agricultura Luiz de Queiroz, o serviço agronômico, a Inspetoria Geográfica e Geológica do Estado, o Horto Botânico, o serviço meteorológico e o suprimento de água potável à Capital e outras cidades do Interior. A Secretaria de Finanças tem a seu cargo o Tesouro do Estado e as diversas recebedorias.

Há também, no Estado, numerosos estabelecimentos pertencentes ao Governo Federal, nomeadamente: a Faculdade de Direito, Sub-Tesouraria Nacional, Telégrafo, o Correio, Alfândega de Santos, Capitania do Porto de Santos e Comando da Guarda Nacional. A receita do Estado em 1910 foi de Rs. 43.280:869$000 e a despesa de Rs. 65.851:701$000.

A instrução tem sido objeto de grande solicitude da parte do Governo de S. Paulo, mas só depois de 1890 ela teve mais alto grau de desenvolvimento. A instrução primária acha-se regulada principalmente pelos decretos de 27 de novembro de 1893 e de 11 de janeiro de 1898, e consiste em dois departamentos, o preliminar e o complementar. O primeiro é para crianças de 7 a 14 anos de idade e o último para as que tenham completado o curso preliminar.

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Catedral projetada, São Paulo
Imagem publicada com o texto, página 637

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Concluído o curso complementar, o aluno recebe um título que o habilita a ensinar nas escolas preliminares. Pelos decretos referidos, deve haver uma escola preliminar em cada distrito em que haja de 20 a 40 meninos, com a idade exigida, erigindo-se tantas escolas quantas forem necessárias para acomodar as crianças - 40 em cada uma. Nos lugares em que uma freqüência de 30 adultos se possa obter, fundam-se escolas noturnas.

Também há no Estado várias escolas modelos, tipo das preliminares, organizadas como escolas práticas para os alunos do curso normal, assim como um kindergarten, na capital, dedicado ao ensino prático das crianças de 4 a 6 anos, pelo sistema Froebel. Além do que se vem de referir, há em S. Paulo um internato em que cerca de 100 meninas órfãs e desprotegidas recebem instrução primária e educação doméstica, sustentando ainda o Estado uma escola correcional para os menores abandonados, vadios e viciados, que ali se educam e aprendem variados ofícios.

Os estabelecimentos mantidos pelo Estado e que intimamente se prendem à instrução do povo são a Biblioteca Pública e o Museu do Estado. Aquela tem, entre as suas coleções, valiosas raridades bibliográficas sobre história, ciência, literatura, filosofia etc., e compreende cerca de 25.000 volumes, assim como grande quantidade de jornais, quer do Brasil, quer do estrangeiro.

O Museu do Estado tem ricas coleções etnológicas, arqueológicas e numismáticas e bem assim objetos históricos, obras de arte e paisagens pátrias. Há também várias bibliotecas, salões de leitura e museus pertencentes a particulares e a corporações; grande número de associações literárias e científicas, as mais importantes das quais são o Instituto Histórico e Geográfico, a Sociedade de Etnografiia e Civilização dos Índios, a Sociedade Científica de São Paulo e o Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas.

Mais de 300 jornais e periódicos se publicam no Estado, a grande maioria em português, e os restantes em italiano, francês, alemão, polaco, árabe etc.


Cidade de São Paulo, vista para as montanhas
Foto publicada com o texto, página 638

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